Luso-americano construiu relógio que vale meio milhão de dólares

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É como bater em ferro frio. Os nossos governantes continuam a não conhecer bem as comunidades da Diáspora. Com excepção de José Cesário, que admiro e apoio incondicionalmente, poucos sabem do talento que existe pelas comunidades portuguesas espalhadas pelo muito. No caso americano, á descobrimos e divulgámos alguns desses talentos, em muito graças a colegas que fazem o mesmo que nós. promover e divulgar as coisas portuguesas. No caso de Germano Silva, um colega, radialista na Califórnia falou-me dele e fui logo saber mais. Pedi-lhe as fotos e ele enviou-as. Fiquei petrificado, mas ao mesmo tempo orgulhoso do talento do Germano. Vá ao facebook e aprenda com um português do Tôpo, S. Jorge, Açores a saber o que humildade, criatividade, talento e portuguesismo. Tinha sete anos quando descobriu a paixão pelos relógios. Ainda vivia em São Jorge, nos Açores, quando um dia decidiu consertar o relógio de um vizinho. Tirou um parafuso, depois outro e acabou com peças espalhadas por toda a casa. Os erros, explica, acrescentam muito. Só assim é possível continuar a aprender e melhorar. Se fosse agora, montar esse puzzle de peças perdidas seria, ironicamente, uma brincadeira de crianças. Foi na Califórnia que Germano Silva, hoje com 71 anos, aprendeu a arte de criar belas peças que registam o passar do tempo. Chegou no final da década de 1960 para trabalhar com o tio, como tantos outros açorianos que procuraram uma vida nova nos Estados Unidos. O artista açoriano já perdeu conta às horas passadas entre ponteiros “Com ele dei os primeiros passos na relojoaria, ourivesaria e joalharia”, recorda. Contudo, a morte do familiar obrigou-o a prosseguir a aprendizagem por si. “Fiquei com uma pequena ideia e fui andando sozinho”, explica com simplicidade. São já 38 anos de uma vida dupla. Fez carreira criando belas e refinadas peças de ourivesaria e joalharia. Ainda no Natal, por exemplo, terminou um anel de ouro cravejado de diamantes, “encomendado por um português”. Vendeu-o por quase 25 mil euros. Mas foi sempre nas horas vagas que abraçou a grande paixão, refugiando-se na oficina de casa para dar vida a relógios de sonho. “Não sou fanático por futebol ou outras coisas. Só gosto disto”, confessa. Germano demorou oito anos a concluir a sua obra-prima São autênticas relíquias artesanais que parecem resgatadas de um tempo em que estas delicadas máquinas de “tic-tac” ainda eram montadas peça-a-peça pelas mãos de artistas. O cenário é agora mais fugaz, em plena época da frugalidade do tempo, mas Germano já perdeu conta às horas passadas entre ponteiros, pêndulos e rodas dentadas. É meticuloso, perfeccionista, cirúrgico na estética e mecânica das suas máquinas. Não estranha, por isso, que tenha demorado oito anos a concluir a sua obra-prima. A peça é um verdadeiro prodígio: técnico e estético. A base é de mogno com a imponência e o fascínio que uma máquina de dois metros e meio de altura e quase 300 quilos de peso suscitam, mas são sobretudo os detalhes que impressionam: curvas polidas, um brilho dourado cravejado de pequenos parafusos, recortes elegantes. Só o mostrador principal tem 65 rodas dentadas, incorporando doze outros relógios mais pequenos, acertados com diferentes fusos horários. Há ainda três outros relógios, um calendário actualizado a cada ano bissexto, uma águia de metal colocada no topo e uma infinidade de outros pormenores trabalhados à mão. De suster a respiração, por alguns segundos. “Em Las Vegas, um índio, dono do hotel onde estávamos, chegou a oferecer-me 200 mil dólares [cerca de 160 mil euros] pelo relógio, só de ver uma fotografia. Disse-lhe que, por aquele preço, não vendia. Veio cá um avaliador de São Francisco e disse-me que valia 500 mil dólares [cerca de 400 mil euros]. É muito dinheiro, mas para mim este relógio não tem preço. Sei que um dia vou vendê-lo, mas não tenho pressa. Não há outro igual”. Parabéns Germano!