ESTADOS UNIDOS | A vida na estrada de um emigrante português na América

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    aQuarta-feira. Chove no bairro português do Ironbound, em Newark. O Benfica acaba de ver o sonho da Taça de Clubes da UEFA adiado mais um ano. Para o emigrante José Carvalheiro, natural de Figueira da Foz, a revolta não se faz esperar. “Estive a ver o jogo num restaurante com adeptos de outras equipas”, conta à reportagem do jornal LUSO-AMERICANO, com a camisola do clube de peito vestida. “O que me revolta é vê-los torcerem pela nossa derrota, quando afinal, ali, o Benfica estava a representar Portugal.”

    De regresso à realidade, o camionista de 57 anos concentra-se na viagem de 1216 milhas (cerca de 2 mil quilómetros) que tem pela frente. Entre Newark e Miami, iria ainda percorrer, noite fora, cerca de oito estados norte-americanos da Costa Leste. Primeira paragem, no dia seguinte, para entrega de mercadoria: Palm Coast, Flórida.

    É ao serviço da firma ‘Triunfo’, do Grupo Seabra, que Carvalheiro faz chegar a diversos pontos do ‘Sunshine State’ os chamados produtos da saudade – do peixe fresco importado semanalmente de Portugal, aos enlatados, refrigerantes e tudo o mais que traga a marca do que é nacional. O trajecto feito pelo camião da Volvo que conduz pode começar em Miami, num dos armazéns que a ‘Triunfo’ aí mantém, ou em Deerfield Beach, onde o grupo opera um supermercado. Passa posteriormente por vários clientes em Palm Coast, a norte da Flórida, onde floresce a mais próspera comunidade lusa na região sul do país.

    José Carvalheiro faz-se à estrada todas as segundas-feiras. À terça à tarde chega a Newark. No dia seguinte, já com o camião abastecido, regressa a sul. Viajam sempre consigo, no interior do compartimento de motorista, um cachecól com o nome de Portugal, uma mini-estátua de Nossa Senhora de Fátima, um recordação do Benfica e a fotografia dos três netos já nascidos em terra do Tio Sam. “Vou ser sempre português”, garante o camionista, que deixou Portugal aos 10 anos de idade para viver em França e acumula já as três nacionalidades – portuguesa, francesa e americana. “Podemos deixar o país, mas ele nunca nos deixa a nós.”

    Quando lhe perguntamos quantas milhas de estrada já acumulará, pára apenas para pensar uns segundos. E logo depois riposta: “Nos Estados Unidos, uns 4 a 5 milhões de milhas. Na Europa, só bem capaz de também ter feito cerca de 5 milhões de quilómetros.”

    Imagina a existência sem a estrada? Como quem olha para o espelho retrovisor da vida, diz: “Estou cansado. Não me importava de parar agora. Estava melhor com a minha mulher em casa, que cada vez mais se cansa de não me ter a seu lado. Mas a verdade é esta: este é o meu trabalho, o meu ganha-pão. E até aos 62 anos, pelo menos, estamos aqui firmes.”

    Carvalheiro cresceu na freguesia de Marinha das Ondas. Aos dez de idade, os pais levam-no para França – onde acaba, já adulto, por fazer carreira como mecânico numa oficina da Peugeot. “Comecei como varredor, o primeiro estrangeiro que empregaram, e cheguei ao mais alto escalão da carreira de mecânico em França.”

    O amor levá-lo-ia de volta a Portugal. “Conheci a minha mulher, Lisete, que era da minha terra, numas férias; ela não se adaptou a França e, quando o nosso filho tinha 7 anos, regressámos de todo.”

    Estava em Portugal quando, aos 33, primeiro conduziu um camião. Mas a 6 de Outubro de 1996, nova partida do destino: a segunda emigração. Desta feita rumo à América.

    Em New Jersey, regressa ao ofício de mecânico. Chega a ter a manutenção técnica de um barco de pesca, atracado em Elizabeth, a seu cargo. Mas volta também à estrada… “Tiro a carta de pesados nos EUA e faço a minha primeira viagem – entre Newark e Miami – ao serviço de terceiros.”

    Compra dois camiões, um para si e outro para o filho. Há uma década vende-os à ‘Triunfo’ e entra para o seu quadro de funcionários. “Comecei por fazer as rotas diárias entre Newark e New Bedford, em Massachusetts. E só mais tarde me ofereceram a Flórida. Eu e a minha mulher fizemos as malas e mudámo-nos.”

    É “a solidão”, na sua óptica, o aspecto menos agradável da vida de camionista. “Antes ainda tinha o cigarro como companhia, agora nem isso”, queixa-se. “Depois é provavelmente a comida. A dieta que nos é oferecida, nas paragens para camionistas na América, não é das mais cuidadas. E eu tenho tendência a ganhar peso… E gosto de comer. Às vezes parece que queremos matar a solidão com a comida.”

    O lado positivo da história? “Ver coisas que, se estivesse em casa ou fechado num gabinete, nunca teria testemunhado. O meu escritório é a estrada.” E dá como exemplo as três viagens que já efectuou à Califórnia, aos armazéns da ‘Triunfo’ nos arredores de Los Angeles. “Atravessar este país é qualquer coisa de extraordinário”, nota.

    Se a vida de camionista não é fácil, a de emigrante tem que se lhe diga… E fala dos estigmas de quem passa a ser estrangeiro onde vive e onde nasceu. “Lembro-me de chegar à América e não dominar a língua. Andei um ano a comer no Burger King, onde bastava pedir a sanduíche que correspondesse a um número no menu. Já emigrei com 32 anos e a comunicação é sempre uma barreira. Em Portugal, por outro lado, fui discriminado por ser emigrante em França. Éramos os ‘ça vas’ e diziam ‘Michel, não vás à água’. Eu tentava a todo o custo não falar francês, quando lá ia, para não ser ridicularizado. Mas há sempre uma palavra ou outra que escapa…”.

    José Carvalheiro, que este ano assumiu a presidência da direcção do Florida Portuguese-American Club de Fort Lauderdale, a acumular à tarefa de correspondente do jornal LUSO-AMERICANO, resume numa palavra a sua existência: “Incerteza. Mesmo quando já estamos estabelecidos, ela não nos larga. É a natureza do emigrante.”