ENTREVISTA | JOAQUIM DE ALMEIDA: “Também sou emigrante”

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    lusowebEm 1983, décadas antes de Diogo Morgado ter entrado em casa de milhões de telespectadores norte-americanos no papel de Jesus Cristo, um lisboeta de São Sebastião da Pedreira dava os primeiros passos de uma carreira em Hollywood que faria dele o mais internacional dos actores portugueses: Joaquim António Portugal Baptista de Almeida.
    Nesse ano, Joaquim de Almeida surgia na película ‘The Honorary Consul’ ao lado do veterano Michael Caine e de Richard Gere. Era a sua primeira grande produção saída de Los Angeles. Nada mau para quem, com o curso de actor tirado em Lisboa na bagagem, sonhava ir longe. E foi.
    Seguir-se-iam séries de êxito na TV americana como ‘Miami Vice’ e longas do calibre de ‘Good Morning, Babylon’ – que abriria o Festival de Cinema de Cannes em 1987. Nas décadas seguintes, Joaquim de Almeida continuaria a convencer os grandes estúdios de Hollywood – contracenando com nomes do peso de Harrison Ford (‘Clear and Present Danger’), Marisa Tomei (‘Only You’), Antonio Banderas (‘Desperado’) ou Owen Wilson (‘Behind Enemy Line’). Em 2011, de acordo com o portal IMDB (Internet Movie Data Base), o actor recebeu 750 mil dólares para entrar no elenco de ‘Fast Five’ – com Vin Diesel e o falecido Paul Walker. De longe um dos seus cachets mais elevados.
    Mas é no papel de um emigrante em França, como protagonista da comédia ‘A Gaiola Dourada’, de Rúben Alves, que o actor, em plenos 57 anos intensamente vividos, invade as salas de cinema em Portugal, contribuindo para que a produção luso-francesa se tivesse tornado no filme de maior audiência no país. Em todos os tempos.
    “Eu também sou emigrante”, afirma peremptório o actor, na entrevista exclusiva que concedeu ao jornal LUSO-AMERICANO em Nova Iorque – onde esteve para a projecção de ‘A Gaiola Dourada’ no ‘Celeste Bartos Theatre’ do MoMA.
    Não rejeita o rótulo de “pioneiro”. De quem abriu caminhos para que outros, hoje, lhe seguissem os passos. “A ideia foi essa”, reconhece. “O Vasco da Gama também foi pioneiro e depois vieram outros. E agora espero que haja outros que tenham até mais sucesso do que eu, porque, afinal, ainda cá estou, ainda estou a trabalhar, mas tive também as minhas limitações, porque não tenho sotaque americano – por exemplo.”
    Sem citar nomes, refere: “De qualquer maneira, acho que há gente nova com muito talento que está a ter aquela gana que eu tive de sair de Portugal e fazer coisas e enquistar mundo. E é preciso ter muita força de vontade e com ela vai-se a qualquer sítio. Depois, com a idade, a força de vontade começa a desaparecer (eu agora quero é retirar-me e estar na praia). Mas trabalho de vez em quando.”
    Modéstia do actor, que, agora, com dupla nacionalidade portuguesa e norte-americana, se reparte entre a casa em Santa Mónica, na Califórnia, e a de Lisboa. É que, para além de ter acabado de rodar o último filme da trilogia ‘Atlas Shrugged’ (com estreia em Setembro nos EUA), tem já agenda preenchida até 2015. O actor luso que mais estúdios de Hollywood pisou segue de Nova Iorque para o Canadá, onde dará vida a outra figura ligada ao universo da emigração – “sou o pai de uma portuguesa no Canadá, apesar de a história ser completamente diferente. Depois vou para França fazer o mau-da-fita de uma produção francesa e tenho ainda um filme também francês a ser rodado no Brasil. Este ano já está arrumado…”.
    O ‘José Ribeiro’ chefe de obra que encarna em ‘A Gaiola Dourada’ “é uma homenagem ao emigrante português”, afirma. O actor lembra que conhece bem a realidade da emigração e saber que “isto é uma grande comunidade” – referindo-se ao eixo Nova Iorque-New Jersey, onde viveu na década de 90.
    Instalado em Manhattan no Hotel Carvi do empresário português Alfredo Pedro (“é óptimo, é um hotel muito giro, com muito gosto”), Joaquim de Almeida esteve ainda na gala do 3.º aniversário do Arte Institute – responsável igualmente pela sua ida ao MoMA.
    Aos portugueses que, como ele, fizeram da América e do mundo a segunda pátria, deixa como mensagem: “Um grande abraço e sobretudo continuemos a ter orgulho em ser portugueses.”