A vida de um português sem-abrigo em Toronto, Canadá que já foi piloto e rico

    1900

    Homeless

    Luís de Faria vive na rua. Carrega consigo num carrinho de supermercado o pouco que tem como todos os sem-abrigo. O carrinho é pesado e Luís tem de fazer algum esforço para o empurrar pelas congestionada ruas de Toronto, onde vive. Nunca deixa os seus pertences ao Deus dará. Mantém o olho na casa que transporta consigo.
    O que sabemos da rua é que transforma quem vive nela. Os mais novos ficam mais velhos e os mais velhos vivem menos tempo.
    Luís era um atleta e passou pela tropa. Mantém um bom físico, apesar dos seus 69 anos. A rua é para ele o  mundo que foi obrigado a preferir. Quando chove coloca um “poncho” e refugia-se-se nos prédios  onde pode e traz sempre consigo duas cadeiras. Uma para os pés e outra onde se senta. Almoça por hábito no “Oaks” um centro de apoio a sem-abrigo no Regent Park. “Nunca janto, não me faz diferença,” diz com olhar vazio. No “Oak” aproveita e toma banho e lava as poucas roupas que transporta consigo.
    “Quando cheguei ao Canadá e acabei na rua foi complicado.”
    Luís é português nascido em Angola e diz que já foi rico. “Tudo o que tenho é uma memória cheia de bons e maus momentos. Uma vida,” desabafa.
    Luís foi piloto em Moçambique antes do 25 de Abril de 1974. Abandonou o território e foi para Londres onde procurou emprego. Teve várias ofertas de emprego como piloto mas decidiu emigrar para o Canadá.
    “Esperei pelos documentos, só que nunca apareceram,” diz.
    Mesmo assim começou como piloto de helicópteros em empresas de construção  no Labrador na Terra Nova e no norte do Quebec.
    “Em 1980 tive problemas com uma empresa de pesca da qual era sócio em Portugal e tive de regressar. Tinha de fechar portas da empresa por razões financeira. A polícia andava à minha procura, no entanto consegui vender a empresa e fiquei a trabalhar em Portugal no negócio do vinho do Porto. Não tardou que o negócio falisse e perdi o controle da minha vida,” diz.
    Não restou outra porta a Luís que não fosse regressar ao Canadá como refugiado. Teve problemas com as autoridades de Imigração porque não estava autorizado a trabalhar. “Se fosse apanhado a trabalhar era deportado mas ainda tinha algum dinheiro no banco.”
    Luís ficou algum tempo hospedado num hotel perto do aeroporto, enquanto o dinheiro chegou. Depois teve de procurar abrigo numa pensão barata e quando já não conseguiu pagar foi enviado para um abrigo, mas não aguentou por lá muito tempo. “Estava habituado a uma vida razoável, era piloto, dava ordens…”
    Entretanto o seu computador foi roubado e culpa a polícia por isso. Era ali que tinha a sua vida. Cópias de documentos e memórias difíceis de recuperar. A certa altura deu de caras com a miséria, a humilhação, a confusão por causa do trabalho e o seu orgulho colidiu com a fome e com a necessidade de sobreviver. Caíu desamparado na rua.
    A toda a hora é importunado pela polícia, para que mude de local, para que não se sente, não se deite, não ocupe o espaço público, não peça nada a ninguém. Uma vez incendiaram-lhe o carrinho de supermercado, o seu espólio de vida, pequeno, miserável e rasca. Mas era a sua vida, o seu mundo.
    Na rua chama-lhe “Fiorito”, talvez por ser Faria, ou Luís, nem sabe.
    Apesar dos seus 69 anos o Luís é um homem educado que fala fluentemente inglês, é inteligente  e muito simpático. Habituou-se a ser desconfiado porque segundo diz, “quem vive na rua não pode confiar em ninguém.”
    A rua é para Luís a mesma coisa que uma empresa, uma grande empresa onde se conhecem os colegas e o mundo, a outra face que trata mal as pessoas e os ignora.
    Luís Faria (Fiorito) para os amigos e tem alguns, já procurou refúgio na comunidade portuguesa mas infelizmente não encontrou a ajuda de que precisava para refazer a sua vida.
    “Procurei e alguns ajudaram-me com dinheiro, mas as pessoas têm a sua vida e não se podem casar com um sem-abrigo”, diz.